sábado, 27 de junho de 2015

Fragmentos para uma crônica do futuro 

 

 

Vocês não sabem o que é uma multidão enfurecida. Foram tempos em que a gente sentia tudo em suspenso: não valia mais segunda feira, oito da manhã, semana que vem. Isso dava uma euforia trágica, como nas guerras, acho. Saber que a vida não inclui o futuro, mas ferve num presente desesperado e desafiador. Tudo era impossível. Tudo era possível. A cabeça do governador pendurada numa estaca no meio da avenida São João. Era Glauber Rocha ao vivo. A ira santa como um fogo redentor.

 

 

Tinha que ver a cara do velho Junqueira quando o capitão veio comunicar que a fazenda estava requisitada para alojar seis mil pessoas. Justo ele que já tinha mandado prender e matar tanta gente dos acampamentos do plástico preto. Agora era o próprio exército abrindo as porteiras para uma gentarada que não tinha fim. A seca foi uma revolução de cabeça pra baixo. Nem sei como dizer. Tudo começou naquele ano, 2015, mas parece que foi ontem. Uma coisa tremenda. 

 

 

Na Grande Seca de 2015, lembrava -se Bibiana, as formigas tinham tanta sede que subiam para beber o suor de nossas pernas, dos nossos braços

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