Fragmentos para uma crônica do futuro
Vocês não sabem o que é uma multidão enfurecida. Foram tempos em que
a gente sentia tudo em suspenso: não valia mais segunda feira, oito da manhã,
semana que vem. Isso dava uma euforia trágica, como nas guerras, acho. Saber
que a vida não inclui o futuro, mas ferve num presente desesperado e
desafiador. Tudo era impossível. Tudo era possível. A cabeça do governador
pendurada numa estaca no meio da avenida São João. Era Glauber Rocha ao vivo. A
ira santa como um fogo redentor.
Tinha que ver a cara do velho
Junqueira quando o capitão veio comunicar que a fazenda estava requisitada para
alojar seis mil pessoas. Justo ele que já tinha mandado prender e matar tanta
gente dos acampamentos do plástico preto. Agora era o próprio exército abrindo
as porteiras para uma gentarada que não tinha fim. A seca foi uma revolução de
cabeça pra baixo. Nem sei como dizer. Tudo começou naquele ano, 2015, mas
parece que foi ontem. Uma coisa tremenda.
Na Grande Seca de 2015, lembrava -se Bibiana, as formigas tinham tanta
sede que subiam para beber o suor de nossas pernas, dos nossos braços
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