sábado, 27 de junho de 2015

E la nave va


O Empoderamento, agarrado ao laptop, o corpo entusiasmado, vibrante, olhos brilhando, apalpava os bolsos procurando a passagem. Andava rápido, mais ainda quando viu o tamanho da fila embolando o saguão do aeroporto. 

Mal se metera na baia e logo um grupo amontoou-se atrás dele.

Era o clã dos Direitos Reprodutivos e Sexuais. Estavam todos: o Direito `a Esterilização, o Direito `a Contracepção Segura, o Direito ao Aborto e o jovem Direito `a Diversidade, em trajes civis. O mais velho do clã, aprumava seus oitenta e tal com leveza. Sim senhoras, o Direito ao Orgasmo ainda mantinha seu charme, embora um certo tique nervoso, quase imperceptível, mas notava-se, como se o traísse, uma ruga de enfado franzindo de leve o nariz. A ruidosa ala mais jovem parecia ignorá-lo mais do que o que seria esperado, visto a reserva moral que ao velho deviam, ao menos junto ao mercado de imagem liberada.

O Empoderamento, atento a tudo o que pudesse incorporar ao seu capital discursivo, alçou as sobrancelhas e abriu os ouvidos.

Quem mais vai estar? perguntava, entre impaciente e curioso o Direito `a  Diversidade. Quem mais?

Ah, a turma de sempre…a Violência contra as Mulheres….
A Violência contra as Mulheres ou a Violência de Gênero? interrompeu o
adolescente.
Ah, sei lá! As duas!
Velho, vai dar pau, vai dar pau, concluiu, antevendo o porre que viria pela

frente. Detestava aquelas obrigações burocráticas.

A Voz Interna do Pai, do avô, no entanto,  martelava: se quer os privilégios de Direito…mantenha os rituais. Sem eles, desaparecemos.Trajes civis.

A fila avançava lenta, todos se apertavam mais, instaurando aquela intimidade forçada, mas até simpática, ideal para coletivizar conversas.

Na verdade, nem teria sido preciso estarem amontoados para que toda a fila
ouvisse  um zunzum que se transformou pesadamente em silêncio ostensivo.
O Empoderamento imediatamente virou-se para ver quem tinha chegado.
Do alto de suas plataformas, dois representantes dos Direitos Sexuais e

Reprodutivos.
Umas drags de boutique - desferiu logo o jovem Direto `a Diversidade do
clã dos Direitos Reprodutivos e Sexuais, subitamente mais velho que seus
contemporâneos de geração, tremendo o piercing do lábio superior.


E os Direitos do Homem? será que já estão lá? fazia, em tom de deboche uma vestida-como-uma-menina.
Direitos Humanos, você quer dizer, tá maluca, mulher? Os Direitos do Homem estariam com 226 anos!

Se tivessem nascido, teriam 226 anos, gargalhou a outra.

O Empoderamento anotou a cena para seu repertório.

Essa ia ser uma  conferência e tanto! Na próxima já teria seu próprio clã.
Um Empoderamento Sexual, um Empoderamento Reprodutivo, um  Empoderamento Diverso, no começo soa estranho, mas, afinal, não tinham assumido o seu neologismo? Suspirou aliviado só de pensar na terminologia anterior. Teriam-no chamado de Barbarismo e isso seria um acoplamento de péssima ressonância para sua imagem. Só de pensar em encontrar o Empowerment um mal estar começava a murchar seu peito. Não podia deixar de sentir-se levemente fake. Mas afinal, ele era apenas um significante.
Essa ideia bastou para sentir-se bem melhor. Bastava cumprir seu papel.
Não matem o mensageiro, comparava-se, divertido. Estava quase chegando
a sua vez de sorrir para o sujeito da bagagem, rezando pra não anotar o
excesso  quando uma voz de criança perguntou bem alta:

Tio, e puxava o braço do Direito ao Aborto:

É verdade que existem pessoas do mesmo sexo?



  

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