E la nave va
O Empoderamento, agarrado ao laptop, o corpo entusiasmado, vibrante, olhos
brilhando, apalpava os bolsos procurando a passagem. Andava rápido, mais ainda
quando viu o tamanho da fila embolando o saguão do aeroporto.
Mal se metera na baia e logo
um grupo amontoou-se atrás dele.
Era o clã dos Direitos Reprodutivos e Sexuais. Estavam todos: o Direito `a
Esterilização, o Direito `a Contracepção Segura, o Direito ao Aborto e o jovem
Direito `a Diversidade, em trajes civis. O mais velho do clã, aprumava seus
oitenta e tal com leveza. Sim senhoras, o Direito ao Orgasmo ainda mantinha seu
charme, embora um certo tique nervoso, quase imperceptível, mas notava-se, como
se o traísse, uma ruga de enfado franzindo de leve o nariz. A ruidosa ala mais
jovem parecia ignorá-lo mais do que o que seria esperado, visto a reserva moral
que ao velho deviam, ao menos junto ao mercado de imagem liberada.
O Empoderamento, atento a tudo o que pudesse incorporar ao seu capital
discursivo, alçou as sobrancelhas e abriu os ouvidos.
Quem mais vai estar? perguntava, entre impaciente e curioso o Direito `a Diversidade. Quem mais?
Ah, a turma de sempre…a
Violência contra as Mulheres….
A Violência contra as Mulheres ou a Violência de Gênero? interrompeu o
adolescente.
Ah, sei lá! As duas! Velho, vai dar pau, vai dar
pau, concluiu, antevendo o porre que viria pela
frente. Detestava aquelas obrigações burocráticas.
A Voz Interna do Pai, do avô,
no entanto, martelava: se quer os privilégios de Direito…mantenha os rituais.
Sem eles, desaparecemos.Trajes civis.
A fila avançava lenta, todos
se apertavam mais, instaurando aquela intimidade forçada, mas até simpática,
ideal para coletivizar conversas.
Na verdade, nem teria sido
preciso estarem amontoados para que toda a fila
ouvisse um zunzum que se transformou pesadamente em silêncio ostensivo.
O Empoderamento imediatamente virou-se para ver quem tinha chegado.
Do alto de suas plataformas, dois representantes dos Direitos Sexuais e
Reprodutivos.
Umas drags de boutique - desferiu logo o jovem Direto `a Diversidade do
clã dos Direitos Reprodutivos e Sexuais, subitamente mais velho que seus
contemporâneos de geração, tremendo o piercing do lábio superior.
E os Direitos do Homem? será que já estão lá? fazia, em tom de deboche uma
vestida-como-uma-menina.
Direitos Humanos, você quer dizer, tá maluca, mulher? Os Direitos do Homem
estariam com 226 anos!
Se tivessem nascido, teriam
226 anos, gargalhou a outra.
O Empoderamento anotou a cena
para seu repertório.
Essa ia ser uma conferência
e tanto! Na próxima já teria seu próprio clã.
Um Empoderamento Sexual, um Empoderamento Reprodutivo, um Empoderamento Diverso, no começo soa
estranho, mas, afinal, não tinham assumido o seu neologismo? Suspirou aliviado
só de pensar na terminologia anterior. Teriam-no chamado de Barbarismo e isso
seria um acoplamento de péssima ressonância para sua imagem. Só de pensar em
encontrar o Empowerment um mal estar começava a murchar seu peito. Não podia
deixar de sentir-se levemente fake. Mas afinal, ele era apenas um significante.
Essa ideia bastou para sentir-se bem melhor. Bastava cumprir seu papel.
Não matem o mensageiro, comparava-se, divertido. Estava quase chegando
a sua vez de sorrir para o sujeito da bagagem, rezando pra não anotar o
excesso quando uma voz de criança perguntou bem alta:
Tio, e puxava o braço do
Direito ao Aborto:
É verdade que existem pessoas
do mesmo sexo?
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