sábado, 27 de junho de 2015

quem quer ser cismulher?

Muita gente celebrou o fato do Oxford English Dictionary ter adotado a palavra Cisgender, cisgênero.
Mas o que há para celebrar?
Pra quem é contra os binarismos, construir essa categoria é no mínimo incoerente. 
Cisgênero é uma pessoa que aceita a atribuição social ao sexo com que nasceu. O refererente, nessa classificação, é o trans, conceito que precedeu o *cis . Mais uma classificação, um marcador social.
Para nós, feministas, nada há que celebrar.

O que seria uma mulher cisgênero? a mulher que aceita a construção social que o patriarcado fez da condição das fêmeas da espécie ( para usar a expressão de Simone de Beauvoir). 
Mas será que alguma mulher está, mesmo que não tenha uma consciência feminista, feminista de carteirinha, contente e satisfeita em ter uma cidadania de segunda, em ser coisificada, agredida, odiada, ridicularizada, explorada, violentada e morta pelo fato de ser mulher? Alguma mulher contemporânea aceita as atribuições sociais dadas ao seu gênero?
O conceito de gênero, elaborado pelas teóricas feministas, refere-se a um sistema de dominação/ exploração que constrói os machos em seres cujas características são a inteligência, o uso da razão; são destros, decididos, fortes e feitos para dominar. A feminilidade é representada por fragilidade,   emotividade, indecisão, dependência, docilidade e passividade. 
A essa construção se deu o nome de gênero, não `a identidade ou ao sexo, como acabou sendo vulgarizado, apropriado e convenientemente distorcido o conceito. Em proveito de quem?
Seria o mesmo que dizer que um operário contente com sua situação é um cis classe explorada. "Classe" é a categoria feita pelo marxismo. Gênero é outra categoria de análise.
Numa sociedade patriarcal, essa apropriação deturpada, retirando o sentido de sistema de dominação/exploração masculina, com o consequente abandono do conceito de patriarcado e da misoginia, como sua base, teve consequências nefastas para as mulheres. 
Ser "feminina" portanto, é tudo o que as mulheres não querem, e estão saindo da formatação, construindo suas identidades de acordo com seus jeitos de ser. É óbvio que a maioria ainda passa baton, cruza as pernas e não arrota alto.
Será que vestir saia, dar gritinhos, se maquiar e botar um salto bem alto é o que faz de alguém uma mulher? Usar calças nos tornou homens?
A construção da "feminilidade" é uma projeção da imaginação que os homem fazem de como lhes convêm que seja uma mulher. E é contra essa "feminilidade" que luta o feminismo.

Uma verdadeira guerra foi deflagrada nas redes por pessoas que acusam as feministas radicais de essencialismo e transfobia. Essas pessoas esquecem que a volta ao biológico se dá com os hormônios e as plásticas. 
Mas por favor, não me digam que temos um privilégio cis e que estão explodindo os binarismos e que reivindicar feminilidade é feminismo. O único privilégio cis que existe é ter um falo e estar feliz com ele e tudo o que resulta disso na sociedade patriarcal.
Além dos ataques `as feministas radicais, tem havido, em coletivos LGBT, pressão para que garotas lésbicas se tornem trans. Esse tipo de atitude diz muito do espírito de dominação que ainda subsiste fortemente em comunidades que se suporia sua superação. Mas como todo mundo sabe, estamos longe disso.
Na prática, o que se tem visto é os patriarcas responderam ao ataque à heteronormatividade, que fazemos tod@s.

A batalha pela eliminação da "ideologia de gênero" que o Vaticano vem fazendo desde o outro papa, e os talibispos e fascistas de todo matiz , continuando com Francisco, o falso lindinho, foi vencida, a nível de estado, no Rio, pela mudança para "machismo" no texto da lei. Uma atitude anti-patriarcal
Creio que a saída dessa guerra absurda, como todas as guerras, é uma frente comum, contra o processo de dominação que oprime: uma frente anti-patriarcado, com amplas discussões sobre as construções de identidades subalternas, os marcadores sociais que atuam separando para alguém reinar.
A palavra cisgênero portanto, não tem nada para ser celebrada. Cristaliza a existência do gênero, que é justamente o que queremos que desapareça.


* Cis é uma palavra vinda da química. Cis e trans são substâncias que têm a mesma fórmula molecular mas propriedades diferentes.

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